O futebol brasileiro passou os últimos anos vendendo o peito da camisa para casa de aposta. A medida provisória anunciada pelo governo em 16 de setembro mostra quanto disso virou dependência.
A MP mira jogos on-line de cassino, do tipo Tigrinho e Aviãozinho, e pode alcançar também o segmento esportivo. O argumento do governo é de saúde pública e de endividamento, com foco no combate à ludopatia e ao efeito das apostas sobre famílias de menor renda.
Os números do mercado ajudam a entender por que o tema chegou à mesa. Segundo levantamento da Máquina do Esporte, 29% dos apostadores estão com o nome negativado, entre 16 e 18 milhões de CPFs aparecem cadastrados em plataformas fora da regulação, 76% da publicidade de apostas em redes sociais vem de operação clandestina e o varejo alimentar calcula perda anual de R$ 140 milhões atribuída ao setor.
A reação dos clubes veio rápido e tem endereço. Flamengo e Cruzeiro publicaram comunicado conjunto contra a medida, repercutido por No Ataque, com o argumento de que restringir o mercado regulado empurra o apostador para a plataforma que não paga imposto e não oferece proteção. Entre dirigentes, a estimativa de perda de receita chega a 20%.
Vale registrar de que lugar esse argumento é feito. Quem assina o comunicado é parte diretamente interessada, porque a cota de aposta virou uma das maiores linhas de patrocínio do futebol brasileiro. E o dado que os clubes usam trabalha contra a própria tese: mesmo com mercado regulado e em plena operação, o setor ilegal já responde por cerca de 45% do total. A regulação não conteve o clandestino, o que enfraquece a promessa de que manter o modelo atual resolve o problema.
O que observar é o texto final da MP, a menos de 20 dias do primeiro turno da eleição, e o que acontece com as cotas assinadas para 2027. É na cláusula de mudança regulatória de cada contrato que se decide quem absorve o prejuízo, e esse detalhe nenhum clube publica.
Foto: Ricardo Stuckert/PR




